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VOA News: África

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Quem ordena ataques policiais à oposição?


  A culpa é da FIR ou estes agem em nome de alguém?  
Por: Noé Nhantumbo

Beira (Canalmoz) - Repetem em escala cada vez maior os ataques protagonizados por agentes da PRM e da FIR contra manifestantes pacíficos em vários cantos de Moçambique.
Esta situação tem alguma origem e obedece a algum comando. Quem age contra manifestantes pacíficos em ano eleitoral só pode ter em vista amedrontar os potenciais eleitores.
Quem orienta e emana instruções de ataque puro e simples contra a oposição política em Moçambique só pode estar a agir em cumprimento de uma estratégia que vise a manutenção do poder, subjugando a vontade popular.
A intolerância policial face às actividades políticas de partidos da oposição precisa ser entendida na sua verdadeira dimensão sob o risco de avaliar-se incorrectamente a situação nacional.
Submeter-se ao veredicto popular está fora das contas de alguns políticos neste país.
Tendo em conta pesquisas de opinião, é possível concluir que um conjunto de factores desfavoráveis dá razão ao que os políticos da oposição vêm advogando como seus trunfos para baterem-se nos próximos pleitos eleitorais. 
As assimetrias no desenvolvimento entre as diferentes regiões do país, a partidarização da função pública e da PRM, o açambarcamento da iniciativa na esfera económica e financeira, o distanciamento progressivo entre governantes e governados, a asfixia da maioria dos moçambicanos, condenados a viverem com salários ou rendas baixíssimas, o desemprego galopante, a batota político-eleitoral, a inconsequência e o descrédito em que caíram instituições como a Procuradoria-Geral da República constituem pontos fracos da governação da Frelimo e pontos de pressão que a oposição reconhece e se mostra disposta a explorar. 

O grau de insatisfação é generalizado que nem as ofensivas mediáticas não conseguem esconder. A repetição de discursos triunfalistas, defensores do status quo, o controle cerrado dos órgãos de comunicação social públicos, limitam a informação que chega aos cidadãos. Mas brechas que surgem são avidamente aproveitadas para dar a conhecer aos moçambicanos um outro lado da moeda. 
Afinal se está a tornar cada vez mais claro que os negociadores dos dossiers de recursos naturais de Moçambique pouco ou nenhum interesse tem exibido no processo. Ao cabo de décadas de emissão de licenças para a captura de camarão, agora vem os chefes do pelouro reconhecer que se vive uma crise sem precedentes. Os níveis de captura diminuíram drasticamente, as empresas nacionais que se dedicavam àquela actividade faliram e mudaram de ramo, doenças e restrições nas exportações devido à falta de cumprimentos de procedimentos básicos estão a matar a galinha dos ovos de ouro. Se o japonês que se dedicava à captura de camarão em Moçambique parece ter levantado âncora para outras latitudes, não tarda que sejam os espanhóis a seguir igual caminho. Um sector com potencial mas que foi votado a um assalto pela nomenclatura ligada ao partido governamental tem visto sua valorização a tardar e a alimentar esquemas obscuros de contrapartidas que a maioria dos moçambicanos jamais viu. Quais são os benefícios que a Pescamar deixa em Moçambique? 
Numa fase de expansão de pesquisas e início de exploração de algumas reservas minerais agitam-se os bastidores e verifica-se uma denotada tendência de excluir os outros e manter o negócio nas mãos de uns poucos moçambicanos bafejados com a sorte de terem ligações íntimas e estreitas com os círculos do poder político-governamental.   
Em Manica e em Cabo Delgado já se viu a PRM a descobrir efectivos para guarnecer minas de pedras preciosas pertencentes a altos escalões da nomenclatura. Esta mesma PRM que quando o cidadão se queixa de um assalto afirma não possuir efectivo para assistir o cidadão.  
Pretender e afirmar que se está a favor da Paz e estabilidade mas ao mesmo tempo fomentar a exclusão feroz só podem concorrer para a radicalização de partes crescentes de moçambicanos.
Uma sociedade que não encontra exemplos de suas lideranças políticas e governamentais tende a encaminhar-se para a violência. 
Um suposto desenvolvimento económico que não ultrapassa expressões numéricas ou estatísticas, que tarda em traduzir-se em emprego pleno para milhões de jovens tem o potencial de fazer descarrilar tudo o que foi conseguido nos últimos anos.
Outro aspecto que ensombra o espectro político relaciona-se com a inflexibilidade governamental em não aceitar negociar. Uns falam de diálogo e outros exigem negociações mas transparece que não há uma firme vontade de negociar. Anunciam encontros entre as partes desavindas mas não se cultiva aquela confiança básica para tornar tais encontros em oportunidade de construção de consensos essenciais. 
Há como que uma estratégia de “arrastamento” dos processos e diagnósticos conhecidos, de tal modo se esgotem as possibilidades existentes de diálogo e negociações e se entre num confronto violento aberto em que uns se julgam os futuros vencedores.
Verdades conhecidas são descartadas porque significariam a partilha do potencial económico e financeiro do país. Todos querem partir de uma posição de força num esquema de encontros que a priori poucos acreditam que trarão resultados ou aquele tipo de resultados que a maioria anseia.
Onde existe vontade de ver a democracia florir não se atiram polícias para as ruas a caça de opositores. O tipo de considerações estratégicas em execução ao nível do governo mostra algum esgotamento concepcional. Parece que se terão embrulhado num número elevado de assuntos sem a preparação prévia, dependendo de uma máquina que funciona em sistema centralizadíssimo. Mesmo que existam cabeças pensantes no governo, estas coíbem-se de manifestar-se porque tem exemplos de sobra sobre o tipo de consequências que poderiam advir para si próprias. 
Colocar na reforma efectiva toda a massa crítica de tecnocratas que se formaram e evoluíram nas diferentes frentes, durante a administração de Joaquim Chissano terá sido um primeiro passo para montar a actual máquina subserviente e obediente. Agora que se mostra necessário incluir interlocutores de peso e com credibilidade, num sistema de negociações ou diálogos entre Renamo e governo da Frelimo, choca-se com a inexistência de tais quadros no activo. Todos recolheram-se para actividades marginais ou poço relacionadas com os assuntos de governação do país. Arrancados brutalmente que nem cancros de um aparelho que ajudaram a formar, não parece possível mobilizar estas pessoas úteis para o país. Irredutíveis ou gente com fama de irredutível dificilmente trarão o tipo de resultados que os moçambicanos precisam no presente momento.
Sem afastar a PRM/FIR das ruas, na sua caca aos que não aceitam a imposição e a repressão de sua vontade, não existem condições para a construção de consensos que façam a democracia afirmar-se no país. 
Afinal quem afirma que a FIR é um braço do partido Frelimo não deixa de ter razão, analisando-se o que esta faz cada vez que manifestantes pacíficos saem à rua apresentando suas reivindicações.  
Engana-se quem supõe que o fortalecimento da FIR ou das FADM irá criar uma atmosfera de segurança no país.
Uma radicalização na arena política pode precipitar acções de natureza irreversível que só colocarão o país novamente na guerra. 
Já esperamos viver num estado policiado e com grupos dinamizadores, grupos de vigilância, SNASP e toda a gama de informadores a trabalhar para anular a vontade popular, a vontade dos cidadãos em pensarem diferente.
Não queremos voltar ao tempo das balalaicas e das guias de marcha.
Depende de nós dizer “não e não”, aos sinistros desígnios elaborados em certos gabinetes da Pereira do Lago… (Noé Nhantumbo)

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